O Editor

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Carinho e o carinhoso

 

Ah, o amor moderno e a sua fascinante capacidade de sobreviver à base de pura ironia. É realmente emocionante observar o comportamento desse espécime raro conhecido como o carinhoso. Ele é aquela criatura iluminada que transborda sentimentos, decidida a soterrar o parceiro sob uma avalanche de apelidos infantis, cafunés milimetricamente calculados e mensagens com mais corações do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Do outro lado da arena, temos o infeliz receptor de tanta dedicação, tentando desesperadamente processar o carinho recebido sem contrair uma diabetes emocional crônica. É uma dinâmica cirquense: o carinhoso se aproxima com os braços abertos, exalando perfume de baunilha e boas intenções, enquanto a vítima recua lentamente, avaliando as rotas de fuga mais próximas.
Afinal, quem não gosta de ser acordado às seis da manhã de um domingo com um beijo estalado na testa e um sussurro dizendo que "o sol nasceu porque você sorriu"? É de uma utilidade meteorológica impressionante. O carinho, nesse contexto, torna-se uma espécie de golpe de jiu-jitsu psicológico: você é imobilizado pelo afeto e, se reclamar, você é o monstro sem coração da história.
A paciência necessária para aguentar o carinhoso deveria contar como experiência em gestão de crises. Cada "você comeu direitinho hoje?" soa como um relatório de auditoria fiscal, e cada abraço de urso na hora do calor de 40 graus é um teste de resistência física digno de reality show. No fundo, é uma troca justa: um oferece uma devoção quase irritante, e o outro oferece o milagre diário de não revirar os olhos até a nuca. É a mais pura definição de romance.