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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Maomé, o responsável

 

Na visão do Profeta Maomé e na tradição islâmica (baseada no Alcorão e nos Hadiths), a obediência e a justiça estão profundamente interligadas: a obediência a Deus e às autoridades legítimas é o caminho para estabelecer a justiça, enquanto a justiça é o limite e a condição para que a obediência seja exigida. No Islã, a justiça ('Adl) não é apenas um conceito jurídico, mas um dever espiritual supremo e um dos atributos de Deus.
Abaixo, detalhamos como esses dois pilares se articulam na perspectiva de Maomé:
1. A Justiça como Pilar Absoluto
Para Maomé, a justiça deve ser cega, universal e aplicada a todos, independentemente de status social, riqueza, etnia ou parentesco. O Alcorão (cuja revelação Maomé transmitiu e exemplificou em vida) ordena explicitamente: "Ó vós que credes! Sede firmes na justiça, como testemunhas de Deus, mesmo que seja contra vós mesmos, ou contra vossos pais, ou contra vossos parentes próximos" (Alcorão, 4:135).
Um dos episódios mais famosos da vida de Maomé ilustra essa intransigência com a injustiça. Quando uma mulher de uma tribo nobre e influente foi flagrada cometendo um roubo, alguns companheiros tentaram interceder para que ela não recebesse a punição legal, temendo a reação da elite. Maomé ficou profundamente desapontado e declarou: "As nações antes de vós foram destruídas porque, se um nobre roubasse, elas o deixavam ir, mas se um pobre roubasse, aplicavam a punição. Por Deus, se Fátima, a filha de Maomé, roubasse, eu cortaria a mão dela".
2. A Obediência à Autoridade e Seus Limites
A estrutura social e política estabelecida por Maomé em Medina exigia coesão e ordem. Portanto, a obediência aos líderes e governantes era vista como essencial para evitar a anarquia (fitnah) e manter a comunidade unida. A regra geral baseia-se no versículo: "Ó vós que credes! Obedecei a Deus, obedecei ao Mensageiro e às autoridades dentre vós" (Alcorão, 4:59). 
No entanto, Maomé estabeleceu uma distinção crucial que diferencia a visão islâmica da obediência cega ou da tirania: a obediência às autoridades humanas nunca é absoluta. Ela está estritamente condicionada à retidão do governante e ao cumprimento das leis divinas.
Maomé deixou claro em seus ensinamentos (Hadiths):
  • "Não há obediência à criatura se isso implicar em desobediência ao Criador."
  • "A obediência é exigida apenas no que é justo e correto." 
Isso significa que, se um governante ordenar algo que viole a justiça, os direitos humanos básicos ou os mandamentos de Deus, o indivíduo não apenas tem o direito, mas o dever de não cumprir aquela ordem específica.
3. A Responsabilidade dos Governantes
Se por um lado Maomé pedia que os cidadãos fossem ordeiros e obedientes para preservar a paz social, por outro ele impunha um peso enorme sobre os ombros dos líderes. Na visão de Maomé, a liderança não é um privilégio, mas uma responsabilidade sagrada pela qual o governante prestará contas no Dia do Juízo.
Ele afirmou: "O líder de um povo é o servo deles" e advertiu severamente que "qualquer governante que comande os assuntos dos muçulmanos e morra enquanto os enganava ou era injusto com eles, Deus lhe proibirá a entrada no Paraíso". Para Maomé, a maior forma de justiça era falar a verdade diante de um governante tirânico.
Conclusão
Em resumo, sob a visão de Maomé, a obediência é o mecanismo que garante a ordem e a estabilidade social, mas ela só é legítima se caminhar lado a lado com a justiça. A justiça é o fim, e a obediência é o meio. Quando o governante age com justiça, a obediência da sociedade é um dever sagrado; quando o governante se torna injusto, o princípio da justiça divina prevalece sobre a autoridade humana.