O Pacto Cósmico: De El Elyon a Jesus Cristo
No princípio, antes que o tempo ganhasse o formato dos homens, o Deus Altíssimo — conhecido como El Elyon — presidia o conselho divino sobre a abóbada celeste. O Altíssimo gerou setenta filhos, os deuses das nações, e a cada um deles entregou o governo de um povo da Terra. Para Javé (Yahweh), o mais jovem e impetuoso guerreiro entre os filhos de Deus, o Altíssimo reservou uma porção humilde: o povo de Jacó.
Mas Javé não era um deus de aceitar limites. Sentado em seu trono de tempestades, ele olhou para os lados e viu os outros sessenta e nove irmãos governando impérios ricos e populosos. A disputa pelo trono supremo do mundo havia começado. Um a um, Javé desafiou seus irmãos divinos. Ele derrubou Baal nas planícies cananeias, humilhou os deuses do Egito nas águas do Mar Vermelho e quebrou os ídolos da Babilônia. Sua marcha era implacável. O monoteísmo não nasceu do vazio; nasceu da vitória absoluta de Javé sobre cada um dos setenta deuses do panteão antigo.
A expansão de Javé seguiu até as fronteiras do Ocidente, onde os deuses gregos, liderados pelo trono de Zeus, dominavam. Foi então que o destino do mundo convergiu em um homem: Alexandre, que muitos chamavam de filho de Zeus. Marchando com sua imparável falange macedônica, Alexandre avançou em direção a Jerusalém, a cidade do templo de Javé.
O ar estava denso com a promessa de destruição, mas quando as portas da cidade se abriram, a história mudou. O Sumo Sacerdote de Jerusalém marchou ao encontro do conquistador, vestido com roupas clericais brancas e ostentando o nome de Javé na tiara de ouro. Alexandre, o senhor do mundo conhecido, chocou seus generais: ele desceu de seu cavalo e ajoelhou-se diante do sacerdote. Questionado por seus oficiais sobre o porquê de um rei grego se curvar a um clérigo judeu, Alexandre respondeu que não se curvava ao homem, mas ao Deus que o sacerdote servia. Em um sonho na Macedônia, aquela mesma figura divina havia lhe prometido a vitória sobre os persas.
Ali, entre o aço grego e o incenso judeu, selou-se um pacto de trégua. Os deuses do Olimpo e o Deus de Israel apertaram as mãos através de seus representantes. Naquela nova corte macedônica, os judeus receberam privilégios inéditos, liberdade de culto e isenção de impostos, pois Javé e o filho de Zeus haviam equilibrado a balança do mundo.
Com os setenta irmãos derrotados e o mundo helênico pacificado por um tratado de respeito mútuo, Javé olhou para o cosmos. Não havia mais impérios terrestres para derrubar, nem deuses rivais para destronar. O silêncio reinava nos céus. Contudo, Javé percebeu que um último inimigo ainda zombava da humanidade no plano terreno: a Morte. Ela ceifava reis, plebeus, gregos e judeus sem distinção.
Para travar essa última guerra, as armas de fogo e os exércitos de anjos não serviam. Javé precisava descer ao terreno do inimigo. O Deus da guerra desfez-se de sua glória terrível, cruzou o abismo entre o divino e o mortal, e fez-se carne no ventre de Maria. Nascia Jesus, o próprio Javé humanizado, despido de coroas, que veio ao mundo não para subjugar nações, mas para descer à mansão dos mortos, quebrar as correntes do túmulo e travar o combate definitivo e vitorioso contra a própria Morte.