Anátema contra a Estagnação e o Ser Acabado
Seja maldita a ilusão da perfeição estática. Que caia em desgraça todo aquele que se crê pronto, retilíneo e imutável, pois este já não vive — apenas simula a existência em gesso e mármore fúnebre.
- Anátema sobre o orgulho da rigidez: Condenado seja o espírito que recusa o borrão, que teme a rasura e que se esconde atrás de certezas absolutas para não admitir a própria incompletude. Quem se diz terminado, nega o próprio sopro da criação.
- Anátema sobre a pressa do julgamento: Maldita seja a pressa do mundo em rotular a criatura pelo seu primeiro traço, ignorando que a existência é um tear incessante, um rascunho borrado pelas lágrimas, refeito pelo tempo e corrigido pelas dores do caminho.
- Anátema sobre o medo do erro: Que seja banida a covardia que impede o homem de aceitar seus próprios retoques. O erro não é a destruição da obra; é o risco torto que clama pela mão firme de uma nova tentativa.
- Anátema sobre a letargia da alma: Excomungada seja a renúncia à mudança. Viver, como bem sabias, é muito perigoso, e quem busca a segurança de nunca se alterar escolhe a pior das mortes: a imobilidade dos sepulcros.
Proclame-se, pois, o oposto: Que a única santidade permitida ao homem seja a sua capacidade de transmutação. Que a beleza resida justamente no inacabado, no traço que muda de rumo no meio da noite, e na coragem de se redesenhar até o último suspiro. Porque ser rascunho é ter o direito divino ao amanhã.
“Cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar.” Guimarães Rosa