O Editor

domingo, 25 de outubro de 2026

O Homem simples 2

 

— O sol nem bem apontou no espigão e você já está de pé, compadre? — perguntou o Imprudente, ajeitando o chapéu caro na cabeça, enquanto olhava com desdém para o orvalho que molhava suas botas de couro fino. — Para que tanta pressa em pegar na enxada? A vida é uma só, e a terra não vai fugir do lugar.
O Homem Simples parou por um instante. Apóia-se no cabo da ferramenta, limpou o suor da testa com a manga da camisa de algodão grosso e olhou para o céu. Sentia o cheiro da terra molhada e ouvia o cantar dos pássaros como quem lê um aviso antigo.
— A terra não foge, compadre — respondeu o Simples, com a voz calma de quem não tem pressa, mas tem prumo. — Mas o tempo voa, e a chuva não espera o sono de ninguém. Quem não planta na hora certa, colhe vento na hora da fome.
O Imprudente deu uma risada alta, daquelas que ecoam sem ecoar dentro da alma. Tirou do bolso um maço de notas e abanou o rosto, como se o dinheiro pudesse afastar o calor do dia que avançava.
— Você se preocupa demais com o amanhã. Eu vivo o hoje! Se faltar milho, eu compro. Se a colheita falhar, a cidade está cheia de fartura para quem tem coragem de arriscar. O mundo é dos que não têm medo do perigo. Veja o meu cavalo ali: corre mais que o vento, desafia qualquer barranco.
O Simples olhou para o animal arfante, amarrado de qualquer jeito perto da grota perigosa. Depois, olhou de volta para o compadre.
— Coragem é coisa bonita quando caminha junto com o respeito — disse o Simples, apontando com o queixo para as nuvens escuras que começavam a se juntar no horizonte. — O perigo não avisa quando vai cobrar a conta. O rio que hoje é calmo, amanhã vira correnteza que carrega até boi gordo. Eu prefiro a segurança de um teto firme e a certeza do feijão no fogo.
— Bobagem de quem tem medo da vida — retrucou o Imprudente, já subindo no cavalo sem checar as rédeas ou a cilha. — Vou descer a serra antes que a tempestade comece. Vou apostar corrida com os trovões!
— Não vá por aí, compadre. A estrada da grota está fofa por causa das chuvas da semana passada. Pegue o caminho do desvio, é mais longo, mas o chão é de pedra — alertou o Simples, estendendo a mão num gesto de aviso.
Mas o Imprudente já tinha dado a espora. O bicho saltou e sumiu na curva, levantando poeira e cascalho, deixando apenas o eco de uma gargalhada soberba.
O Homem Simples suspirou fundo. Voltou os olhos para o seu pedaço de chão, limpou a enxada e caminhou calmamente em direção à sua casinha de adobe, onde a fumaça do fogão a lenha já subia mansa. Sabia que, na escola da vida, a prudência é a única lição que não aceita segunda chamada.