O Editor

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Trabalho é diferente de roubar

Será desonestidade? Ou ignorância vocabular?

   Reel - Ilustração

 

 

A distinção entre moralidade, caráter e o real significado das palavras muitas vezes se perde na superficialidade dos discursos cotidianos. Nem é uma questão de desonestidade, e sim de ignorância vocabular. Quando esvaziamos os conceitos de sua complexidade técnica e filosófica, passamos a operar em um maniqueísmo simplista que empobrece o debate público e a convivência social.
Por falta de repertório ou por pura preguiça intelectual, convencionou-se adotar rótulos absolutos. Sob essa ótica limitada, assume-se que uma "pessoa de bem" é, simplesmente, uma pessoa que não é uma "pessoa do mal". Essa definição circular e infantil ignora que a virtude não é a mera ausência de uma maldade caricata. Ser um indivíduo ético exige uma postura ativa de responsabilidade, empatia e cumprimento de deveres civis, algo que vai muito além de apenas não portar uma vilania explícita.
Essa ignorância do vocabulário e das estruturas sociais atinge seu ápice na compreensão do que move a verdadeira perversidade. O indivíduo genuinamente maldoso não trabalha; ele é, essencialmente, um salteador. A sua lógica não é a da construção, da cooperação ou do esforço produtivo, mas sim a da usurpação. O salteador vive de subjugar o esforço alheio, de romper pactos sociais e de se alimentar do caos ou da fragilidade dos outros.
Portanto, antes de debatermos intenções e desonestidades intelectuais, precisamos resgatar o peso e o significado real das palavras que usamos. Só assim deixaremos de chamar o mero egoísmo de "bem" e passaremos a enxergar a maldade exatamente como ela se apresenta: um ato parasitário e destrutivo.